Especial | Destaques do teatro em São Paulo – 2025

Num 2025 hostil ao teatro, que expôs as feridas da cidade, os destaques do ano revelam quem mostrou força e trouxe luz à categoria artística
Imagem: Capa / Divulgação

O ano de 2025 foi desafiador em diversos aspectos para o teatro paulista. A disputa pelo território proporcionada pela especulação imobiliária que provocou o fechamento de diversos teatros, como se vê no mais recente caso da Cia Mungunzá de Teatro ou mesmo espaços já tradicionais como o Procópio Ferreira, coroou o ano com muita desesperança, mas também salientou a importância da luta.

Além disso, algumas polêmicas como a de um “crítico de teatro” que vende suas críticas e, por suposição seu voto nos prêmios em que participa como jurado, um dos quais leva seu próprio nome, escancararam a corrupção dos grandes prêmios de teatro. Situações como a daquele musical que esteve no Rio e em São Paulo, deixou o Sol entrar tanto que gerou relatos de desidratação e mal-estar entre candidatos à audição, de modo que o nosso enfraquecido SATED teve que intervir. Agora mais ao final do ano, uma nova polêmica reascendeu a ausência de pagamento para pessoas que tentaram mudar de hábito. Ser artista têm se mostrado uma escolha difícil, mas apesar desse cenário, a luta continua e há vitórias, como a presença de atores e atrizes mais velhos transbordando o palco com sua experiência e talento.

Uma cidade que não respeita o seu teatro tende à própria ruína, como aprendeu Penteu em As bacantes. Por aqui, devido ao ano particularmente conturbado, pude acompanhar apenas 13 peças, das quais 9 eram “originais”, isto é, que eu não havia assistido antes, o que justifica as poucas opções de espetáculo. Caso eu mantenha o mesmo ritmo no ano que se aproxima, 2026 será meu último ano como crítico, pois acredito que teatro é algo muito sério e não dá para trabalhar com ele como se fosse qualquer coisa, afinal, não é possível pensar no estatuto de “crítico de teatro” para pessoas que não escrevem textos de qualidade.

GRUPO HOMENAGEADO | TEATRO DO INCÊNDIO

O grupo homenageado apresenta excelência artística, contribuição à comunidade teatral, relevância cultural e social e, sobretudo, engajamento com o fazer teatral e a democracia. É homenageado por dar um passo a mais diante de outros trabalhos.

Imagem: Logotipo do grupo Teatro do Incêndio / @teatrodoincendiooficial

Nesse ano de 2025, o grupo escolhido foi o Teatro do Incêndio, que se aproxima da comemoração de 30 anos de existência e trabalho no bairro do Bixiga. Em peças como “Águas queimam na encruzilhada”, “De Dioniso à Koré” e “São Paulo Surrealista – Corpo Antifascista”, é evidente o modo como a cidade e seus problemas ganham uma forma dramática a partir de uma linguagem que mescla o teatro épico com o teatro de revista. Cada espetáculo não perde a porosidade que mobiliza internamente o público que o assiste e o puxa para dentro da experiência, em um movimento que demonstra o ímpeto pela mudança e a justiça social.

TÉCNICA | DIREÇÃO

Em “Direção” entende-se o trabalho criador de uma visão coesa dos elementos teatrais para o acontecimento do espetáculo.

Cesar Ribeiro | Projeto Clarice

Cesar Ribeiro tinha como desafio principal articular alguns contos de Clarice Lispector, autora que tem como marca a visão míope, isto é, o engrandecimento das coisas pequenas e a procura do âmago das coisas. Junto a isso, a composição do elenco era de peso, com grandes atrizes. À conexão entre esses elementos, além das escolhas tomadas, conferem a ele o destaque.

Gabi Prota e Guilherme Zati | Porta aberta

Gabi Prota e Guilherme Zati tinham sobre as mãos um material cênico que exigia precisão na organização temporal e espacial em cada minúcia do espetáculo, que se passa em três momentos temporais distintos e apresenta personagens que também mudam com esse tempo. Disso derivam escolhas cuidadosas na direção, pois a má condução no encadeamento de cada cena resultaria no enfraquecimento das reviravoltas do texto.

Luiz Fernando Lobo | Morte e vida severina

Luiz Fernando Lobo com maestria explora o imagético, literário e poético de Morte e vida severina de modo coeso. A tensão entre o espaço, ritmo e tempo do espetáculo fornecem ao espectador uma experiência de maravilhamento, que orbita no melhor dos dois mundos da literatura e do texto clássico de João Cabral. Além disso, o rigor nas transições e, em especial, no aproveitamento dos silêncios convocam o público ao êxtase cênico.

Marcelo Marcus Fonseca | São Paulo Surrealista

Marcelo Marcus Fonseca mantém sua condução mágica na direção do espetáculo São Paulo Surrealista, como observado em todos seus trabalhos anteriores. Marcelo é o único diretor que coloca o público dentro da cena de modo onipresente, em um ritmo cuidadoso e permite o encontro com a materialidade da luz, o corpo, o tempo e o espaço. Dessa condução, a cena é menos uma investigação e mais uma provocação ao teatro e ao público.

TÉCNICA | SONOPLASTIA

Por “Sonoplastia” entende-se a direção musical e a trilha sonora.

Alfredo Del-Penho | Nossa história com Chico Buarque

Alfredo Del-Penho tinha como pano de fundo uma ampla seleção das canções de Chico Buarque, já consolidadas pelos ouvidos dos mais diversos públicos, o que fazia com que as escolhas a serem tomadas lidassem com expectativas e, a depender das modificações propostas, poderiam receber certa rejeição. Além disso, grande parte do repertório deveria ser pensado para a dança. Ele conseguiu açular essas tensões e reafirma sua autoridade na orquestração dos arranjos, modulando percepções e afetos.

Cesar Ribeiro | Projeto Clarice

Cesar Ribeiro cuidou da trilha sonora do Projeto Clarice como quem costura as atmosferas da subjetividade, em especial da autora e do texto ali presente. A tradução sonora do texto à cena operou pela fricção dos diversos sentidos do texto e das atrizes. Nada sobra, nada falta. Assim, o desenho sonoro organiza o invisível, fator essencial de Clarice, e provoca no público um inventário de emoções.

Itamar Assiere | Morte e vida severina

Itamar Assiere merece todos os aplausos do mundo. Em Morte e vida severina a condução sonora realça a escuta atenta do texto e do jogo cênico. O brilho maior percebe-se na transição entre cenas, nos momentos em que os retirantes se deslocam de um lado para o outro, pois a trilha sonora organiza e honra aquelas trajetórias, em tom alegre e esperançoso. De fato, ocorre a fusão da geografia com o trabalho sonoro, algo nunca visto antes.

TÉCNICA | FIGURINO

Por “Figurino” entende-se o traje dos personagens que contribuem esteticamente na peça, possuem coerência histórica, mas caso não possua seja bem justificado e que contribuam no discurso que a peça propõe.

Beth Filipecki e Renaldo Machado | Morte e vida severina

Beth Filipecki e Renaldo Machado demonstram um domínio notável na pesquisa histórica que levaram aos figurinos em Morte e vida severina. As escolhas inscrevem os personagens no tempo específico do meio do século passado na geografia nordestina e, embora recorram ao esperado, conseguem individualizar cada pessoa que entra no palco, em especial quando a mesma pessoa está no coro (coletivo) e interpreta algum personagem (individual).

Guilherme Zati | Porta Aberta

Guilherme Zati realiza escolhas ousadas e muito inteligentes. Em uma peça em que os personagens estão o tempo todo em cena e cada qual esconde um segredo, a escolha do figurino é bem marcada e traduz o íntimo de cada um. Guilherme transforma os figurinos e as questões interiores dos personagens e suas relações com o outro em um suporte para o discurso visual de organização de signos, fuga a estereótipos e posicionamento dramatúrgico.

TÉCNICA | CENOGRAFIA

Por “Cenografia” entende-se como o cenário traduz a história que é apresentada.

J. C. Serroni | Projeto Clarice | Morte e vida severina

J. C. Serroni reitera sua habilidade e experiência de escutar com atenção e respeito a matéria cenográfica do texto e ainda assim incluir a soberania de sua imaginação. Em Projeto Clarice e Morte e vida severina, dois projetos distintos, é evidente a versatilidade de seu talento pois, no primeiro, parte do macabro e do onírico na elaboração do cenário e, no segundo, transporta o universo da seca e preserva a delicadeza da disposição dos personagens em seu cenário.

Rager Luan | Tá pra vencer

Rager Luan reconstitui o quintal de uma casa periférica paulista, com bandeira da Vai-vai, roupas penduradas no varal, cadeiras de bar, entre outros objetos comuns da vida cotidiana da “quebrada”. Entretanto, esse “comum” dialoga diretamente com o subjetivo e as relações dos e entre os personagens, de modo que o banal se converte em um extraordinário dispositivo dramatúrgico que sustenta as nuances afetivas e políticas do espetáculo.

TÉCNICA | ILUMINAÇÃO CÊNICA

Por “Iluminação Cênica” entende-se o trabalho do desenho de luz que cria a ambientação do espetáculo, realça e oculta os objetos cênicos e artistas e se inscreve como uma dramaturgia dialética.

Cesar de Ramires | Morte e vida severina

Cesar de Ramires organiza sua dramaturgia de luz como um jogo visual suave, mas potente. Há uma explosão de cores nas transições entre as cenas que se aproxima de modo exemplar à linguagem do cinema, ao mesmo tempo em que consegue enfocar uma luz fixa e amarelada de modo dialético entre o interior dos personagens e sua fusão com a cenografia. Há um pleno domínio entre os contrastes e as penumbras necessárias.

Rodrigo Palmieri | Projeto Clarice

Rodrigo Palmieri manipula a gramática luminosa das cenas com suavidade e dureza de modo orgânico. A sensação de estar em uma “balada”, em um jogo de luzes que criam atmosferas oníricas, calorosas e consistentes, ritualizam os contos de Clarice Lispector e se tornam uma ponte afetiva-intelectual que dialoga com o público. A luz divide, de modo claro, o palco e a plateia, separando o real e instigando o universo do imaginário.

Rodrigo Sawl | São Paulo Surrealista

Rodrigo Sawl transforma as luzes de São Paulo Surrealista em algo tão material que é como se a luz pudesse ser tocada com as próprias mãos. Há uma forte compreensão de como trazer fantasmas à vida, em especial pelo túnel de luz que projeta. O manejo técnico, aliado a uma observação atenta do que cada cena exige, gera um perfeito e potente equilíbrio entre texto e iluminação, além de tensionar a reflexão estética e material do surrealismo.

TÉCNICA | DRAMATURGIA

Por “Dramaturgia” entende-se o texto dramático que compõe uma narrativa, com desenvolvimento significativo de personagens, organização do enredo e modo de contar a história

Adriane Hintze | Porta aberta

Adriane Hintze se destaca pela escuta atenta do contemporâneo. Porta aberta escapa do estereótipo que infelizmente se tornou comum para personagens gays. A fuga à obviedade concretiza personagens com angústias, segredos e subjetividades plenamente construídas, o que Adriane realizou de modo exemplar. A isso, a inteligência estrutural do texto organizou as lacunas que construíram a reviravolta de modo natural.

Jhonny Salaberg | Tá pra vencer

Jhonny Salaberg referencia de modo evidente a Esperando Godot, de Beckett, e Sociedade do cansaço, de Byung-Chul Han, mas traduz e tropicaliza as obras para um contexto periférico atrelado ao impacto que a sociedade atual tem no reforço às questões de saúde mental da população negra. Disso emergem personagens reconhecíveis, em um texto didático e político com diálogos que mobilizam a afetividade através do humor.

Marcelo Marcus Fonseca | São Paulo Surrealista                                                 

Marcelo Marcus Fonseca condensa todos os problemas estruturais de São Paulo através da linguagem surrealista do mesmo modo que um maestro rege uma orquestra: preciso. O grande mérito de Marcelo é conseguir dominar a liberdade surrealista, a distorção da realidade como crítica palpável ao caos implantado pelo atual governo Tarcísio – Ricardo Nunes e trazer à cena personalidades históricas que ajudam a desconstruir a cidade.

Marcelo Romagnoli | O menino maluquinho

Marcelo Romagnoli vincula os elementos do Menino Maluquinho em camadas simbólicas e afetivas que dialogam com todas as infâncias, de adultos e crianças, sem perder a essência do personagem do Ziraldo. Sua dramaturgia faz claras referências ao livro, ao filme e aos quadrinhos. O texto, que acompanha a memória de um dia na vida do Menino Maluquinho, possui uma estrutura madura resgatando o infantil em cada um de nós.

Pablo Manzi | Onde vivem os bárbaros

Pablo Manzi desmistifica e mitifica a polissemia da palavra “bárbaro” e é nesse jogo de significados que se descortina todo seu texto. Unido à consciência histórica e sensibilidade política da América latina, a dramaturgia critica a imposição e ascensão do autoritarismo, ao mesmo tempo que traduz nos diálogos a tensão provocada pela linguagem, revelando a herança colonialista herdada pela língua. Dessa fricção, surge a beleza de seu texto.

ATUAÇÃO E ESPETÁCULO | ATOR

Por “Atuação”, entende-se a compreensão narrativa, o desenvolvimento técnico (trabalho material de atuação) e consciência de si como saber-fazer na composição de um personagem.

Ernani Sanchez | Onde vivem os bárbaros

Ernani Sanchez verte para seu papel toda a tensão do texto Onde vivem os bárbaros. Seu personagem é moderado, e sua potência cênica resulta no controle da vulnerabilidade e do medo que sente, tal como se expressa na economia gestual, assim como nas explosões emotivas. As minúcias de sua atuação, como observado nos olhares e na respiração, bem como o domínio dos silêncios, apresentam ao público um ator excepcional.

ATUAÇÃO E ESPETÁCULO | ATRIZ

Por “Atuação”, entende-se a compreensão narrativa, o desenvolvimento técnico (trabalho material de atuação) e consciência de si como saber-fazer na composição de um personagem.

Amy Campos | São Paulo Surrealista

Amy Campos atinge em São Paulo Surrealista o supra sumo dos trabalhos que vinha apresentando até então. Em sua atuação percebe-se ter encaixado bem em seu personagem, de modo que beleza e a nobreza da sua entrega, além do trabalho corpóreo e mimese focada no cômico, trazem encanto em seu Alfred Jarry. Ademais, chama a atenção o esboço de autoria cênica com a qual, de agora em diante, o público poderá contar.

Jennifer Souza | Tá pra vencer

Jennifer Souza traz o frescor para sua personagem Janaína de modo delicado, equilibrando muito bem a comédia com a angústia e a preocupação, sem atalhos psicológicos. A naturalidade tão precisa em humanizar uma personagem que narrativamente se coloca como um estereótipo transparece a qualidade de seu trabalho de atriz, o que se molda na excelência de sua interpretação.

Vera Zimmerman | Projeto Clarice

Vera Zimmerman tem um desempenho brilhante em Projeto Clarice. Ao interpretar diversos personagens, que vão desde uma mulher adulta e experiente até uma criança, a modulação de voz, gestualidade e a relação estabelecida com as outras parceiras de cena, ratificam sua segurança. Seu potencial de atuação a cada peça parece chegar mais longe, a tornando uma das maiores atrizes da contemporaneidade.

ATUAÇÃO E ESPETÁCULO | ESPETÁCULO

Teatro do Incêndio | São Paulo Surrealista

O Teatro do Incêndio mobiliza o onírico, o colorido, os deuses gregos, os orixás e diversos pensadores e artistas do passado paulista para discutir a política através do delírio. São Paulo, cada vez mais vendida e excludente, transforma-se no campo de batalha em que o público é convocado, de modo perfeitamente construído, a reconhecer e discutir seus contornos, seus marginais e seus burgueses. A fricção entre poesia e crítica social estrutural e espetacular elevam São Paulo Surrealista ao status de melhor peça do ano de 2026.

Que venha 2026,

Evoé

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