Outros jeitos de viver o teatro | Ocupação Grande Othelo

Exposição no Itaú Cultural, na Avenida Paulista, homenageia legado do ator e comediante Grande Othelo até 8 de março
Imagem: Montagem com fotos da exposição / Fotografia: Arthur Macedo

Ao subir o primeiro piso do prédio do Itaú Cultural, o público é iluminado pelas cores amarelo, branco e marrom, que marcam o andar da exposição que presta homenagem ao ator Grande Othelo. O centro da mostra é o terno branco, costurado com detalhes dourados, que fica ao lado de uma cartola na mesma cor, elevados sobre um banco de praça em madeira e metal, e é iluminado por postes de luz que remetem ao clima nostálgico dos tempos do ator, além de ser um bom lugar para registrar uma fotografia de lembrança da Ocupação.

Imagem: Centro da exposição / Fotografia: Arthur Macedo

A Ocupação Grande Othelo, que estreou no dia 6 de dezembro do ano passado, segue em cartaz no prédio do Itaú Cultural, próximo ao SESC Avenida Paulista, até o dia 8 de março. A curadoria, concepção e realização é da equipe do próprio Itaú Cultural, com aquisição da maior parte das fotografias, vídeos e objetos em parceria com a Fundação Nacional de Artes (FUNARTE). O projeto expográfico é assinado pelo diretor da Cia. da Revista, Kleber Montanheiro, que elabora habilmente uma sensação nostálgica em quem passeia pela exposição.

Sebastião Bernardes de Souza Prata (1915 – 1993), mais conhecido como Grande Othelo, foi um ator e comediante mineiro muito conhecido pelo filme Macunaíma (1969, direção de Joaquim Pedro de Andrade), em que deu vida ao personagem-título, e pela participação na Escolinha do Professor Raimundo no início dos anos 90, em que interpretou o personagem Seu Eustáquio Jetelgy. Embora esses sejam os papeis que mais resistiram ao tempo e ainda são lembrados nos dias de hoje, Sebastião participou de inúmeros programas de televisão, peças de teatro, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais pela sua carreira no cinema e foi um dos fundadores da Companhia Negra de Revistas, em 1927.

Imagem: Othelo quando jovem, s. d. / Acervo FUNARTE / Registro da exposição

Apesar de apresentar recortes biográficos da infância do ator, o recorte da curadoria é a sua carreira no teatro, cinema e televisão, na qual vídeos, fotos e a alegria são o fio condutor da Ocupação. Assim, o público se depara com o disco da opereta A noiva do condutor, no qual Othelo cantou ao lado da atriz Marília Pêra, além de fotos dele com atrizes como Eike Maravilha para a divulgação do filme O barão Othelo no barato dos bilhões em 1971, por exemplo. Há também uma reportagem de jornal que exalta seu papel como o primeiro Sancho Pança negro no musical Dom Quixote de La Mancha, que estreou no Teatro Municipal de Santo André e fez uma temporada no Teatro Anchieta, em São Paulo. Nessa peça, inclusive, atuou ao lado de Paulo Autran, que interpretou Dom Quixote e Bibi Ferreira, que deu vida a Dulcinéia.

Além das fotografias, matérias de jornais e vídeos, o visitante encontra figurinos icônicos do ator, documentos que deram a ele títulos de cidadão honorário em algumas cidades, posteres de filmes, troféus que recebeu, além de poemas escritos por Othelo. Há, ainda, uma sala em que são exibidos trechos de filmes, simulando um cinema.

Imagem: Banca com jornais, livros e revistas sobre Grande Othelo / Fotografia: Arthur Macedo

Em um tempo em que há um evidente resgate dos artistas do século XX, em especial no teatro, como as peças sobre Djavan, Gal Costa, Rita Lee, entre outros, a presença de Grande Othelo realça sua importância como homem negro pioneiro nas artes cênicas de modo geral, como observado na exposição. Ainda, as discussões atuais sobre o direito de artistas já eram pautadas por Othelo, e a mostra traz, também, uma carta manuscrita por ele na qual solicita um estudo sobre o financiamento de artistas por produtora de filmes. Desse modo, fica evidente o legado dele para o movimento artístico atual, tendo em vista que também pautava as questões raciais em sua carreira.

Ao abrir esta ocupação, celebramos não apenas um processo criativo, mas a responsabilidade – e o privilégio de preservar a memória do nosso Brasil. Revisitar a trajetória de Grande Othelo é revisitar também nossas raízes, nossas contradições, nossa força cultural”, comenta Kleber Montanheiro em seu Instagram. A escritora Conceição Evaristo, mineira como Othelo, em um dos textos que circula pela mostra, relata que ele é “um negro-sol, presença-resistência da cultura brasileira”.

Imagem: Público circulando pela exposição / Fotografia: Arthur Macedo

A exposição é contemplativa, conta com recursos de acessibilidade e não há uma ordem a seguir para usufrui-la, de modo que o público pode circular livremente por ela. Como ocupa todo o primeiro andar, o tempo de visita pode variar entre 20 e 30 minutos, mas ao final dela é possível sentir uma maior intimidade com o artista e o desejo de conhecê-lo mais.

A trajetória de Grande Othelo é uma inspiração para a cultura nacional, que muito deve ao seu talento e às ações que tomou ao longo do século XX. Sobretudo, é necessário afirmar sua identidade como um artista e intelectual negro, ao sempre questionar e desestabilizar os paradigmas raciais que assolam e estruturam o país. Em seu poema “O brasileiro, quem será?”, ele afirma que “É preciso um brasileiro, / para salvar o Brasil, do Brasil”, lançando ao futuro a responsabilidade de compreender que a salvação do Brasil é o próprio Brasil.

Exposição – Ocupação Grande Othelo

Onde? Itaú Cultural – Av. Paulista, 149 – Bela Vista, São Paulo – SP, 01311-000

Quando? De Terça à Domingo (11h às 20h) até 8 de março

Quanto? Grátis

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